O planeta Terra tem muita água, 70% de sua superfície é coberta por ela. O problema está em um detalhe importante: apenas 2,5% desse total é de água doce. E, desse volume, rios, lagos e reservatórios, de onde a humanidade retira o que consome, representam somente 0,26%. Segundo relatório da UNESCO, 2,2 bilhões de pessoas no planeta não têm acesso à água potável, enquanto metade da população mundial enfrenta grave escassez hídrica em algum período do ano.
No Brasil, o cenário aparenta ser mais confortável. O país concentra cerca de 12% de toda a água doce do mundo, sendo um dos mais ricos em disponibilidade hídrica. Mas abundância não significa segurança. Grande parte dessa água está concentrada na Amazônia: a região Norte reúne 68% dos recursos hídricos, enquanto abriga apenas 6% da população.
No Sul, onde a agricultura move a economia, a água é mais escassa e muito mais valiosa. É nesse contexto que a Unisep desenvolve ações práticas de proteção de nascentes no sudoeste do Paraná. Neste mês de abril, acadêmicos do 3º semestre de Agronomia do Centro Universitário Unisep – Campus de Dois Vizinhos realizaram a proteção de uma nascente na propriedade rural de Jucimar Carlos Fontana, na Comunidade Rio Mombuco, no município de Nova Esperança do Sudoeste.
Acadêmicos de agronomia na construção da proteção do olho d'agua
Por que proteger uma nascente?
Tudo começa com a chuva. A água infiltra no solo, atravessa camadas geológicas e, ao encontrar uma barreira impermeável, retorna à superfície. Esse ponto é a nascente, origem de riachos, córregos e rios. Protegê-la vai além de um gesto ecológico. É garantir o funcionamento de toda a cadeia hídrica ao longo do curso d’água.
As nascentes alimentam rios e lagos, sustentam a vida aquática, abastecem populações e ajudam a regular o ciclo hidrológico. Também contribuem para a umidade do solo e a estabilidade dos ecossistemas. Quando degradadas, seja pelo pisoteio de animais, contaminação, erosão ou desmatamento, comprometem não apenas a fonte, mas tudo o que depende dela rio abaixo.
No Sudoeste do Paraná, essa questão vai além do meio ambiente, sendo também econômica. A região é um dos principais polos agrícolas do estado, com forte produção de soja, milho e trigo, além de ser uma das maiores bacias leiteiras do Paraná.
A agricultura responde por 72% do consumo de água doce no mundo e, em países em desenvolvimento, grande parte dos empregos depende diretamente desse recurso. Nesse cenário, preservar nascentes e manter rios saudáveis é condição básica para a produtividade e para a sobrevivência das propriedades rurais familiares que dominam a paisagem regional.
Para a professora Marceléia Rubert "A importância da atividade de extensão está diretamente ligada à preservação ambiental e à agricultura sustentável, temas cada vez mais relevantes na atualidade e amplamente discutidos pela agroecologia. Nesse processo, o estudante compreende que a agronomia e a ecologia são áreas interdependentes, cuja articulação é essencial para enfrentar os desafios contemporâneos."
Como funciona a proteção de uma nascente?
Apesar de parecer simples, o processo exige técnica e conhecimento. A proteção da nascente começa com a limpeza manual do local e a abertura de uma vala para escoar a água represada, evitando o uso de máquinas para não danificar a vegetação. Em seguida, é feita a limpeza do olho d’água, retirando terra, folhas e raízes até atingir o solo firme.
Com o solo retirado, prepara-se a mistura de solo-cimento, feita com terra argilosa, cimento e água. Essa massa é usada para formar uma pequena barragem que protege a nascente. Durante a construção, são instalados canos de PVC com funções específicas: um para limpeza, outro para saída da água e outros para escoar o excesso.
Após a estrutura, o espaço é preenchido e vedado com solo-cimento, protegendo a fonte contra contaminações. Também pode ser instalado um sistema para desinfecção periódica da água, quando necessário.
Por fim, a área ao redor da nascente é cercada, respeitando um raio de proteção de 15 metros, para garantir a preservação da vegetação.
O resultado é uma nascente protegida contra contaminações, livre do pisoteio de animais e com fluxo de água limpo e controlado, preservada por décadas.
A proteção de nascente sendo finalizada
Ponto de vista legal
Pela legislação brasileira, o entorno de nascentes é classificado como Área de Preservação Permanente, conforme o Código Florestal (Lei 12.651/2012). A medida visa proteger os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade. Mais recentemente, a Lei 14.653 passou a incluir ações de recuperação e proteção de nascentes como atividades de baixo impacto ambiental, reforçando o incentivo a esse tipo de iniciativa.
Para a professora do curso de Direito da Unisep e especialista em Direito Ambiental, Mauricéia Rita Dalle Tese, “As nascentes são consideradas Áreas de Preservação Permanente pela legislação brasileira, o que mostra a importância da sua proteção não só do ponto de vista legal, mas também ambiental. Nesse sentido, ações como as desenvolvidas pelos alunos da Unisep são fundamentais, pois levam orientação técnica aos produtores rurais, incentivando práticas de cuidado e, sempre que possível, a ampliação da área de proteção ao redor das nascentes. Isso contribui diretamente para a conservação da água e do equilíbrio ecológico.”
Uma história que se repete e precisa continuar
A atividade mais recente foi desenvolvida de forma interdisciplinar, integrando a disciplina de Extensão “Agronomia e o Meio Ambiente I”, sob orientação da professora Marceléia Rubert, e a disciplina de Recursos Naturais Renováveis, conduzida pelo professor e diretor de Planejamento Institucional Ivan Carlos Bertoldo.
Mas, a ação em Nova Esperança do Sudoeste não é isolada. Ano após ano, a Unisep leva acadêmicos ao campo com uma missão concreta: proteger nascentes em propriedades rurais da região. A iniciativa já passou por municípios como Verê, Nova Prata do Iguaçu e Cruzeiro do Iguaçu, deixando como legado fontes de água preservadas e produtores orientados.
“A atividade prática no campo permite que o acadêmico compreenda, na realidade, a importância da conservação dos recursos hídricos. Mais do que aprender a técnica, ele entende o impacto direto que uma nascente protegida tem na vida do produtor rural e na sustentabilidade da propriedade. Esse contato com a comunidade reforça o papel da universidade como agente de transformação, levando conhecimento aplicado e contribuindo para o desenvolvimento regional de forma contínua.” Destaca o professor de Agronomia e Diretor de Planejamento Institucional, Ivan Carlos Bertoldo
Proteção de nascente realizada em 2022
Extensão que transforma a sociedade
Mais do que um exercício técnico, a atividade representa a essência da extensão universitária: levar o conhecimento para além da sala de aula e gerar impacto real. Ao atuar em uma situação concreta, os acadêmicos desenvolvem algo que nenhuma prova escrita mede: segurança prática. Aprendem a identificar nascentes, analisar o ambiente, aplicar técnicas e orientar produtores, competências que se multiplicam ao longo da vida profissional.
O produtor rural também se transforma. Ao acompanhar o processo e ver o resultado, passa a compreender a importância da proteção e tende a replicar a prática em outras áreas, além de compartilhar o conhecimento com vizinhos. Cada nascente protegida se torna um ponto de partida para mais consciência, mais cuidado e mais água limpa.
Para a Coordenadora do Curso de Agronomia da Unisep - Campus de Dois Vizinhos, Jaqueline Destri, "A realização de projetos de extensão representa um dos pilares fundamentais da formação acadêmica, especialmente em áreas aplicadas como a Agronomia. A extensão promove a conexão entre o conhecimento teórico construído em sala de aula e a realidade prática vivenciada na sociedade, permitindo que o acadêmico compreenda, de forma concreta, os desafios e as demandas do mundo real."
Água, terra e futuro
No Sudoeste do Paraná, a relação entre água e produção é direta. Cuidar das nascentes é garantir a continuidade da agricultura que sustenta cidades e movimenta a economia regional. Um rio saudável começa em uma nascente preservada. E uma nascente preservada começa com decisão, de uma universidade, de professores e de estudantes que entendem que o conhecimento só tem valor quando transforma a realidade.
A Unisep vem fazendo essa escolha há anos. E, a cada nova nascente protegida, deixa uma marca silenciosa, mas permanente: a água que continua brotando, limpa e essencial.



